João Matos ao Record: «Terminar com uma Champions foi mágico». O adeus, o Sporting, Jorge Braz e o futuro como treinador
Numa extensa entrevista concedida ao jornal Record, João Matos abriu o coração após colocar um ponto final numa carreira ímpar. O antigo capitão do Sporting falou da decisão de terminar, da conquista da UEFA Futsal Champions League, da relação com Nuno Dias e Jorge Braz, da Seleção Nacional, do legado deixado em Alvalade e admitiu que acredita ter perfil para um dia seguir a carreira de treinador.
Depois de 20 épocas ao serviço do Sporting CP, 44 títulos conquistados e uma despedida perfeita com a conquista da terceira UEFA Futsal Champions League da história do clube, João Matos concedeu uma grande entrevista ao Record, onde revisitou os momentos mais marcantes da sua carreira e refletiu sobre o futuro.
O antigo internacional português admite que ainda está a adaptar-se à nova realidade.
"Nem sei quando vai cair essa ficha. É muito recente, ainda é tudo muito cedo. Foram muitos anos, muitos colegas começaram comigo, outros entretanto chegaram, outros estão agora no estágio. Ainda não me caiu a ficha de que vou deixar de ser jogador."
"Era evidente que o ciclo acabava"
João Matos revelou que percebeu, ainda durante a época, que o seu percurso no Sporting estava a chegar ao fim.
"Sabia que, terminando este contrato, o Sporting não ia querer renovar. Era evidente pelo contributo desportivo visível que estava a ter. O ciclo acaba e está tudo bem."
Apesar disso, garante que nunca ponderou representar outro clube.
"Há muitos anos que digo que queria terminar a carreira no Sporting. Tinha, mas fazia todo o sentido terminar agora, mantendo este legado que construí ao longo de mais de duas décadas."
Questionado se teria aceite continuar caso o Sporting lhe tivesse apresentado uma proposta, respondeu afirmativamente.
"Sim. Porque tenho de olhar para aquilo que podia oferecer em termos de rendimento, apoio no balneário e ajuda aos meus colegas. Ainda me sentia capaz de continuar a jogar."
O antigo capitão reconhece, no entanto, que a qualidade do plantel também pesou na decisão.
"A minha qualidade como atleta era cada vez mais inferior perante a evolução dos meus colegas e concordo que Tomás Paçó, Wesley, Diogo, Bruno Major e outros mereciam as oportunidades por mérito."
"Terminar com uma Champions parecia destinado"
A conquista da Liga dos Campeões na despedida tornou o final de carreira ainda mais especial.
"Foi muito especial terminar com a chave de ouro e dando o máximo. Terminar com uma Champions parecia destinado, foi mágico."
João Matos recorda que a primeira Champions continua a ocupar um lugar especial.
"A primeira Champions foi incrível. As horas depois, a festa no João Rocha... foi muito marcante."
"Não tenho noção do que conquistei"
Apesar dos 44 títulos, João Matos garante que nunca parou para pensar na dimensão da carreira.
"Não tenho noção do que conquistei. Fiz o que me competia: treinar, dedicar-me, jogar e tentar vencer."
Admite que só mais tarde conseguirá perceber verdadeiramente o legado que deixa.
"Espero ter essa noção quando realmente desligar. Neste momento ainda sinto que fiz apenas aquilo que tinha de fazer: trabalhar e lutar pela equipa."
Sobre o respeito conquistado, inclusive entre adeptos rivais, explica que tudo nasce da educação.
"Isso vem da educação, dos valores e da minha essência. Sempre procurei agir corretamente. O que os meus pais me passaram foi muito mais importante do que qualquer título."
"O Mundial é o topo dos topos"
Com mais de 200 internacionalizações, João Matos identifica imediatamente o momento mais marcante pela Seleção Nacional.
"O Mundial. Não há ninguém melhor do que nós. É o topo dos topos."
Ainda assim, destaca o Europeu conquistado em 2018 como um momento transformador.
"O primeiro Europeu marcou uma viragem na Seleção. Foi um momento em que percebemos que podíamos olhar para o futuro de outra forma."
Jorge Braz mudou a história da Seleção
Ao falar da Seleção, João Matos não escondeu a admiração por Jorge Braz, considerando-o uma das figuras mais importantes da sua carreira.
"A mentalidade do Jorge Braz fez muita diferença. Ele construiu a Seleção à sua volta com um projeto de longo prazo."
E prosseguiu:
"O Jorge Braz também é outro alucinado. Nunca vi ninguém fazer tantos quilómetros e passar tantas noites sem dormir."
Mas faz questão de destacar sobretudo o lado humano do selecionador.
"Levo muito mais do que aquilo que aprendi dentro do campo. Das coisas mais bonitas que levo é a aprendizagem humana. Foram 213 jogos com ele."
O papel de Nuno Dias
Outro dos nomes incontornáveis da carreira é Nuno Dias, treinador com quem trabalhou durante 14 anos.
"Foram 14 anos. Acima de tudo prevaleceu sempre o respeito. Queríamos os dois o melhor para o Sporting e crescemos muito juntos."
O abraço após a conquista da Champions foi um dos momentos mais emocionantes da despedida.
"Nós sofremos muito juntos. Muitas derrotas, muitos jogos menos conseguidos, mas também trabalhámos muito para conquistar aquela Champions. O abraço foi um sentimento de dever cumprido."
"Tomás Paçó será o novo João Matos"
Questionado sobre quem poderá assumir o papel de líder no balneário leonino, João Matos não teve dúvidas.
"O Tomás Paçó, sem dúvida. Logo que chegou aos seniores percebi que seria o futuro João Matos. Tem capacidade, personalidade, caráter e educação para ficar muitos anos no Sporting."
"Acho que terei jeito para treinador"
Embora ainda esteja a dar os primeiros passos fora das quadras, João Matos admite que o treino pode fazer parte do futuro.
"Neste momento estou a trabalhar com as federações e a organizar eventos competitivos. Quero continuar ligado ao futsal e ajudar os clubes."
Sem esconder a ambição, acrescentou:
"Vou trilhar o meu caminho, formar-me e adquirir conhecimentos. Posso nunca ser treinador, como posso um dia treinar o Sporting. Acho que terei jeito, mas depende de mim."
Apesar de ainda não ter recebido qualquer convite para integrar a estrutura leonina, deixa uma porta aberta.
"Não, mas quem sabe para a frente. Terei sempre as portas, mais do que as portas, as janelas abertas para o Sporting."
"Nunca me senti uma lenda"
Apesar de ser considerado por muitos adeptos um dos maiores símbolos da história do Sporting, João Matos rejeita esse rótulo.
"Nada disso. Quando o Sokolov chega ao Sporting diz-me: 'É um prazer enorme estar aqui, tu não tens noção de como és visto na Rússia'. Eu realmente não tenho essa noção. Só fiz aquilo que me competia."
Aos 39 anos, João Matos despede-se das quadras como o jogador mais titulado da história do futsal europeu, deixando um legado de 44 títulos, 213 internacionalizações, três UEFA Futsal Champions League e duas décadas de dedicação absoluta ao Sporting e à Seleção Nacional. A carreira terminou, mas, como o próprio admite, o futsal continuará certamente a fazer parte da sua vida.