O Benfica parte para 2026/27 com o estatuto de bicampeão nacional, mas Cassiano Klein recusa qualquer ideia de acomodação. Para o treinador encarnado, o ponto de partida para a nova temporada não está nos títulos já conquistados, mas na capacidade de manter uma equipa competitiva, dinâmica e permanentemente disponível para evoluir.

Depois
de duas épocas marcadas por conquistas e por uma identidade cada vez mais
vincada, o Benfica entra num novo ciclo com alterações no plantel, reforços com
experiência internacional, como Cléber Souza, e uma atenção clara à
integração de jovens da formação.
Em
entrevista à Zona Técnica Futsal, Cassiano Klein falou da construção do
novo grupo, da importância da consistência, do papel da formação, das
dificuldades impostas pelo calendário e de uma palavra que pretende manter bem
presente no quotidiano encarnado: obsessão.
Zona
Técnica Futsal — O Benfica parte como bicampeão, após uma época marcada por
várias conquistas. Depois de chegar novamente ao título, qual é o maior
desafio: manter o nível competitivo ou encontrar novas formas de continuar a
fazer evoluir uma equipa vencedora?
Cassiano
Klein: O maior desafio,
acredito que é sempre a consistência. Há uma frase que para mim faz muito
sentido. Tudo o que acontece na nossa vida não nos define. Ou seja, tu ganhas
um jogo e continuas a trabalhar. Se tu perdes um jogo, continuas a trabalhar. O
mesmo se aplica aos campeonatos. Acredito que uma equipa tem de estar disposta
a dar sempre o seu melhor. Independentemente do que aconteça. Isso é o caráter
da equipa, e procurar aprender ao máximo. Eu acho que na época passada nós
aprendemos muito e ficámos felizes por, no final, as coisas terem acontecido
como gostaríamos, mas o mais importante é que tivemos um empenho e um brio
muito grandes.
Zona
Técnica Futsal — O plantel sofreu algumas alterações, recebeu jogadores com
experiência internacional, como Cléber Souza, ao mesmo tempo que mantém uma
base importante do grupo campeão. Está satisfeito com a construção do plantel e
que características procurou acrescentar para tornar o Benfica ainda mais
completo?
Cassiano
Klein: Temos uma equipa
em que temos a característica de competir muito. E quando vamos buscar alguns
jogadores, um dos pensamentos é trazer jogadores sobre os quais temos ótimas
informações de trabalho, dedicação e companheirismo; jogadores versáteis,
dinâmicos, jovens, mas muito promissores. Acredito que isso nos vai dar uma
capacidade de velocidade muito grande, que estamos a procurar construir aqui no
Benfica. Nestas duas épocas, um ponto positivo, se eu tivesse de destacar um, é
a dinâmica. É uma equipa que entra em campo para competir sempre numa
rotatividade muito alta e eu acredito que a equipa que conseguimos construir
nesta época tem muito essa identidade.
Zona
Técnica Futsal — Na pré-época foram integrados jovens como Diego Ferreira,
Gustavo Oliveira e Vasco Pinto. Sendo o Benfica um clube com uma exigência
imediata de resultados, que importância tem conseguir criar espaço para a
formação e preparar jogadores para se afirmarem progressivamente na equipa
principal?
Cassiano
Klein: Eu acredito que
o treinador tem um papel fundamental, que é o de procurar os jogadores certos e
não, talvez, os mais badalados. Claro que ter jogadores que tenham know-how e
uma grande experiência é importante, mas nós procuramos ter jogadores que
acrescentem algo ao grupo, independentemente da idade. Acredito que o Benfica é
um dos maiores clubes do mundo. Na minha humilde opinião, acho que hoje é um
clube que está a desempenhar muito bem o seu papel. E, sem dúvida nenhuma, a
presença da formação, dos jogadores jovens, transmite-nos uma energia muito
grande. Ficámos felizes por alguns jogadores, e aqui falo também dos
guarda-redes, pois nas duas épocas vencemos jogos decisivos nas grandes
penalidades e os dois guarda-redes foram decisivos, defenderam bolas cruciais
para nós. Isso talvez demonstre um pouco do belo trabalho que está a ser feito
na formação e espero que consigamos continuar a fazê-lo.
Zona
Técnica Futsal — O Benfica volta a ter uma temporada muito exigente, com a
defesa dos títulos nacionais e a participação na UEFA Futsal Champions League.
Depois da experiência acumulada nas últimas épocas, sente que a equipa está
hoje mais preparada para gerir diferentes competições e chegar aos momentos
decisivos no seu melhor nível?
Cassiano
Klein: Temos
competições desafiantes e eu creio que o nosso maior desafio é o calendário.
Tudo o que pretendemos fazer é conseguir treinar a equipa. E, para treinar uma
equipa, é preciso tempo. Honestamente, em alguns momentos, o calendário torna o
treino num grande desafio. Jogamos a cada três dias, com viagens pelo meio, e
há outros campeonatos em que os jogadores também vão representar os seus
países. Mas faz parte de orientar uma equipa de topo, como o Benfica. Acredito
que temos uma equipa com um caráter enorme. Uma equipa que vai procurar lutar e
entregar-se por todos os objetivos, por todas as taças e campeonatos. Mas,
honestamente, sei que há outras equipas do nosso nível que também têm os mesmos
objetivos que nós, e o que vai fazer com que cheguemos, talvez, um décimo à
frente é esta entrega diária que estamos a procurar transmitir todos os dias.
Tenho uma frase sobre a qual procuro pensar muito, e que para mim faz todo o
sentido: chegar ao final da época, olhar para trás e saber que merecemos algo.
E, se por acaso não alcançámos os objetivos, temos de ser honestos connosco
próprios e admitir que deixámos a desejar nalguma coisa. Nestas duas épocas,
creio que conseguimos competir de forma muito forte. Tudo o que conseguimos foi
por mérito do trabalho diário, e agora, nesta época, mais do que nunca, vamos
ter de revelar um caráter muito grande, porque não vai ser fácil disputar estes
jogos ao nível que queremos.
Zona
Técnica Futsal — Disse no arranque da pré-época que começa “uma nova história,
um novo capítulo” e que o Benfica tem de ser obcecado por melhorar. Depois do
bicampeonato, qual é a fasquia para 2026/27? A conquista do campeonato continua
a ser a principal referência ou sente que esta equipa tem condições para dar
também um passo em frente na Europa?
Cassiano
Klein: Gosto muito da
palavra "obsessão" porque acredito que as pessoas obcecadas são
incansáveis. Imaginem uma pessoa que tem a missão de ganhar um milhão de euros.
E essa pessoa consegue. Em dois anos, a trabalhar no duro, consegue. Muitos,
quando conseguem esse milhão de euros, param de trabalhar. Porque já alcançaram
o seu objetivo. Mas os obsessivos, não. Os obsessivos conseguem-no e
estabelecem outra meta. E quando alcançam essa meta, avançam para outra nova
meta. São essas as pessoas que eu admiro. E com quem quero trabalhar
diariamente. É isso que procuramos fazer. É ter sempre um objetivo e, sempre
que terminamos esse objetivo, já estamos a pensar no próximo. Sabemos que os
próximos campeonatos são desafiantes e vamos estar constantemente a trabalhar
para lá chegar.
O
discurso de Cassiano Klein aponta, assim, para uma ideia central: o
bicampeonato é uma referência, mas não pode transformar-se num ponto de
chegada. O Benfica pretende preservar a identidade competitiva construída nas
últimas duas épocas, acrescentar velocidade e versatilidade ao plantel e
continuar a criar espaço para jogadores jovens, sem perder de vista a exigência
imediata dos resultados.
Num
calendário que voltará a colocar os encarnados perante várias frentes,
incluindo a UEFA Futsal Champions League, o treinador coloca a fasquia
na capacidade de competir diariamente e de chegar ao fim com a certeza de que a
equipa fez por merecer aquilo que conquistou.
Para
Cassiano Klein, ganhar não encerra o processo. Apenas cria o próximo objetivo.
Português
English
Español
Français
Italiano